ivone, a manta dos 80's

É o terceiro ano consecutivo que a primeira publicação é dedicada a uma manta. Não tem sido planeado, apenas tem acontecido. Mas também, qual a melhor forma de uma apaixonada por mantas de crochet começar o ano?

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Desde imaginá-la ao concretizá-la, foi um longo caminho. Passei por um período de indecisão no que respeitou ao acabamento. Estiquei-a dezenas de vezes na cama, no chão, mirei-a, fiz experiências, criei meios hexágonos, fiz franjas, pompons, imaginei barras, até que concluí que a primeira vontade que tivera fora a  única que me convencera. A primeira vez que decidi ter chegado o momento dos acabamentos foi quando me apercebi da assimetria das orlas e numa primeira impressão gostei daquilo, mas com o passar dos dias as dúvidas instalaram-se. Sabem que mais, quanto mais queremos fazer mais riscos corremos de castrar as ideias, portanto, o melhor que temos a fazer é deixar fluir e respirar, isto é, dar tempo. Foi o que fiz, esqueci-me dela e um dia voltei a olhá-la e quando regressei não tive dúvidas que era mesmo aquilo que queria. Queria-a diferente, foi o que saiu e os meus olhos gostam do que vêem.


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A ideia para a manta surgiu há pouco mais de um ano atrás, numa altura em que tive de fazer uma temporada em casa dos meus pais, por questões de saúde dos mesmos, fiquei por lá cerca de duas semanas. Um dia ao entrar na casa de jantar dos meus pais fixei-me na toalha de mesa feita pela minha mãe nos inícios dos anos 80. Olhei para aquela toalha tanta vez ao longo dos tempos, mas só naquele dia me passou a ideia pela cabeça, estes hexágonos eram capaz de dar uma manta.
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Esta é a toalha feita pela minha mãe, composta por dois hexágonos com desenhos diferentes, reproduzi os dois mas acabei por optar apenas pelo mais trabalhado. Quando o fiz estávamos a entrar no Outono e inspirei-me na estação para as cores escolhidas. Mais tarde apercebi-me que as cores que escolhi eram as que compunham a decoração da sala dos meus pais naqueles tempos, coisas da memória. Durante algum tempo chamei ao projecto manta de Outono, mas acabei por lhe dar outro nome, Ivone, que é o nome da minha mãe.




E agora deixem-me contar-vos o que é que esta manta representa para mim. Quando eu era miúda a minha mãe fazia muita renda, desde colchas para as camas, toalhas de mesa, conjuntos de naperons, rendas em lençóis,  picots nisto e naquilo, não parava, era de seguida, e fez renda até há uns anos atrás. Já não faz, não consegue, não se lembra sequer que um dia fez, a doença deu-lhe conta da memória... não é fácil lidar com esta realidade, apenas se aprende a seguir em frente. Voltemos àquela época. Lembro-me quando os meus pais resolveram fazer umas mudanças em casa e transformar a sala de jantar da altura (que ainda tinha ar de sala dos anos 60) numa sala comum, tão famosas nos inícios dos anos oitenta. As decorações dos 80´s eram do mais kitsch que possam imaginar, alcatifas, papel de parede com grandes ramagens de cores fortes e escuras, quadros de estampas nas paredes e tralha por todo o lado. Num estalar de dedos, as salas transformavam-se num verdadeiro labirinto de sofás, cadeiras, estantes, mesas e mesinhas, bibelots, tralha, tralha, tralha, precisamente o oposto das tendências dos dias de hoje. Mas sabem,  os olhos gostavam daquilo, naquela altura fazia sentido e o facto é que o comum dos mortais passou a ter acesso ao consumo, com todas as desvantagens que daí advieram, mas a sociedade da altura estava a viver um momento novo e não quis perdê-lo. Ora, mesa nova pedia toalha nova, com toda a certeza que foi o que a minha mãe pensou, e sem perder tempo, toca a dar ao dedo. Fez esta tal, com dezenas de pequenos hexágonos em linha Âncora nº6, côr beje. Na altura as rendas eram um tédio, todas bejes, cremes e brancas. Ah, esperem lá, os naperons para as cozinhas tinham cores fortes, sim malta, naperons nas cozinhas era mato, aliás, havia o hábito de espalhar naperons por todas as dependências da casa. Lembro-me de uns em tons de castanho e laranja, grannysquare, a condizer com as fórmicas dos armários, da mesa e cadeiras da cozinha e também com o papel autocolante que revestia os azulejos da cozinha, todo às flores pequeninas, castanhas, laranjas e brancas, a fazer lembrar os tecidos de algodão usados nos patchworks, eheheh muito bom, ah e lembro-me do vinil que forrava o chão da cozinha. Amiguinhos, nos 80's vivíamos no mundo do plástico! Mas regressemos à toalha, que foi executada hexágono a hexágono nas viagens de comboio entre Lisboa e Sintra, percurso diário feito pela minha mãe para ir trabalhar. Fazia cerca de seis horas de viagem diárias, autocarro para Cacilhas, barco para o Terreiro do Paço, autocarro para o Rossio, comboio para Sintra e autocarro para a empresa. Oito horas depois, o regresso. Era assim e os crochés entretinham-na naquelas repetidas viagens. Aquela peça antes de ser toalha de mesa, como muitas outras peças, foi companheira de viagem da minha mãe. Sei que é a toalha preferida dela e a mim faz-me lembrar os dias em que a minha mãe era uma senhora cheia de vida, expedita, uma verdadeira guerreira que se levantava de segunda a sexta às cinco da manhã para ir trabalhar todo o dia na secção de embalagens de um grande laboratório da altura, e regressava a casa às sete e meia da noite, sempre com um sorriso e um mimo para me dar. Entre muitas outras coisas, também me lembro do saquinho de papel do refeitório com uma carcaça lá dentro, a mala dela cheirava sempre a pão, um cheiro característico que guardo na memória e que ainda hoje me causa     conforto.
Conclusão, a Manta Ivone é inspirada nos inícios dos anos oitenta e é também uma espécie de tributo aos crochés da minha mãe. E ainda mais do que isso, é uma prova de como nos podemos inspirar nos designs antigos e reportá-los para os dias de hoje, dando-lhes uma nova visão e um novo lugar.



Até já
Ana Lado B


17 comentários

  1. Que bonita ficou e que memórias ela representa para ti ainda que ela tivesse sido feita à tão pouco tempo e baseada em outra feita pela tua mãe. É uma boa homenagem ! Eu sou dos anos 80 e revi-me em muitas coisas que descreves ;o)Parabéns pelo trabalho e pelo texto do post ;o)

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  2. Adorei ler este post Ana.
    Grande homenagem que fizeste à tua mãe ela merece, quase que vi passar o filme por mim, não sendo assim, quase se assemelha à minha vida lá para atrás.
    Fiquei inspirada nesta tua manta, fiz uma que está por acabar bem lá no fundo do saco e já lá vão dois anos, pode ser que com esta tua ideia surja alguma coisa, vou pensar é que já lhe dei tanta volta....
    Beijinho grande.

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    1. Pois é, às vezes damos tanta volta aos trabalhos e não chegamos a nenhuma conclusão. Nada como nos deixarmos levar pelo momento. Espero que a Manta Ivone te ajude a chegar a uma solução para a tua ;) bjs*

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  3. Um texto maravilhoso! Uma manta carregadinha de história. Ficou muito linda! Gosto de hexágonos :-)
    Beijinhos, Susana

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    1. Os hexágonos dão mantas espectaculares ;)
      Obrigada Susana, bj*

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  4. O efeito do hexágono é maravilhoso!
    É um belo projeto!!!
    Veja se conhece esta dica:
    https://asarteiricesdagracinha.blogspot.pt/2018/01/sabonete-multicolor.html
    bj

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  5. Muito bonita Ana :)
    E tão bom essas recordações ;)
    Beijinhos e bom ano :)

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  6. Oh, se me lembro! a paranoia dos naperons era tal que até chegava aos automóveis, cheguei a ver muitas almofadas de renda nas chapeleiras dos carros, para não falar da boneca bem no centro da cama com um vestido enorme de renda bem estendido, quanto maior fosse o diâmetro da roda melhor.
    Um Bom Ano
    Maria de Lurdes

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    1. É verdade Lurdes, era tudo levado ao limite e muito piroso!

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  7. Olá Ana, sabes que já aqui vim várias vezes, já li e reli com atenção o post. Parei para me lembrar como era a casa dos meus pais nos anos 80 e apanhei-me a sorrir ao lembrar-me das cores da sala e dos naperons na cozinha. Em baixo de cada electrodoméstico na bancada, um naperon. Não era a minha mãe que os fazia e sim a porteira do prédio a quem a minha mãe encomendava. Até havia uns feitos com umas argolas plásticas. Não sei se me faço entender: as argolas faziam o centro da flor e era crochetado à volta delas. As cores da sala eram as da tua manta: brique na alcatifa e verde seco nos sofás!! ah, até o liquidificador tinha uma capinha em crochet!
    E a tua manta está um espanto, uma linda homenagem à tua mãe. Como podes olhar para uma toalha feita há tantos anos e "repaginá-la" desta forma, com tanta imaginação e ternura. Sinto muito que a tua mãe esteja a ter uma velhice complicada. Sofre ela e sofrem vcs e é doloroso lembrar dos tempos em que ela era ativa e o teu porto seguro. Agora é ao contrário. Mas sempre fica muito das nossas mães em nós. Prova disso é essa tua habilidade, gosto e arte! tens bem a quem sair. Muitos beijinhos, Ana!

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    1. Ainda este fim de semana que passou fui ter com os meus pais e a minha mãe, pela primeira vez, não me reconheceu. Que posso fazer, a não ser continuar a dar-lhe o mimo que ela tanto merece? é duro mas há mesmo que seguir em frente.
      Esses naperons com as argolas plásticas sei muito bem do que falas, a minha mãe fez uns conjuntos desses, lembro-me de um verde claro e branco e outro salmão e branco. Oh, tu sabes o gozo que me dá reinventar e transformar desenhos de rendas passadas em crochet contemporâneo :) obrigada pelas palavras, querida Val!

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  8. Olá! Adorei este post!! Manta Ivone, manta das memórias, manta dos afetos. Acho que sou um pouco mais nova que a Ana, mas também me lembro perfeitamente dos naperons por baixo (mas também por cima!!) de tudo e mais alguma coisa em todas as divisões da casa. Num cantinho da cozinha de casa dos meus avós existia um rádio grande, a pilhas. Esse companheiro especial dos dias dos meus avós tinha direito a um naperon colorido por baixo e também um por cima, com um pato de loiça a terminar o conjunto!! 💝

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    1. Sim, sim, naperons aos molhos! Também me lembro de ver em cima da televisão antiga (daquelas que tinham só dois botões) um naperon com um bibelot ao centro eheheh

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  9. Bom dia minha querida Ana
    Estou aqui com uma chávena de café na mão e a ler estas tuas palavras que tal como um livro fez me viajar até esse tempo .
    Sou mais nova do que tu mas tenho essas memórias dos naperons por todo o lado, da tv a preto e branco dos desenhos animados ao sábado de manha .
    De comer o tal chocolate que o meu avô trazia ao Domingo depois da missa .Que normalmente era ou um guarda chuva ou um ratinho em chocolate .
    Memorias que ficam !
    Essa Manta tem tanto amor e significado, que bela homenagem essa dada á D.Ivone tua mãe .Entretida nas suas 6 horas diárias para lá e para cá , fazia o que gostava.
    Eu não imagino o que é estar tanta hora em deslocações diárias e com 8 horas de trabalho, que guerreira !

    A tua manta não é muito usual ver hoje em dia, é raro ver hexágonos em peças de crochet.

    Gostei do toque que lhe deste com um hexágono aqui e acolá de cor, os pompons deram lhe a sua graça e o mais importante a memoria que te traz da tua mãe Ivone .
    Olha que tudo corra pelo melhor com os teus pais,fiquem bem
    Bj grande
    Lulu

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    1. Querida Lulu, muito obrigada pelas tuas doces palavras! Fico feliz por teres gostado da manta e ainda mais por saber que te inspirou e te levou numa viagem no tempo para recordares boas memórias.
      beijinhos*

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